segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

Uma Tarde no Parque


 

Céu parcialmente nublado, na cidade, com sinais de chuva em algumas regiões. Lá fora o trânsito está congestionado e barulhento, mas no parque reina a paz, ao som do canto de pássaros e coaxar de rãs. Os canteiros estão transbordando de charco. É possível sentir o cheiro das folhas secas em decomposição na lama, mas nada que se compare a um pântano ou mangue. O alto grau de umidade do ar, associado à pouca incidência de sol, no momento, fornecem uma sensação de aconchego ou melancolia, dependendo da visão de cada um.

Nas trilhas os caminhantes são poucos e restringem-se praticamente a casais de meia idade e pequenos grupos de homens idosos, que conversam e riem. Os solitários estão em menor número, até mesmo aqueles que encontram no local um refúgio - os moradores de rua. Os dois que podem ser vistos, estão um a dormir e o outro a espreitar o movimento. Já no campo de futebol e nos aparelhos de ginástica há muitos jovens, inclusive crianças que brincam, auxiliadas por adultos que as acompanham.

Numa composição bem brasileira o sol banhava de amarelo o verde das árvores, no momento em que crianças de farda azul e branco passavam retornando do colégio. Não tardaria muito para que estrelas aparecessem pelo céu, que, àquela altura já não estava mais tão nublado. Um vendedor de brinquedos e algodão doce, assim como um de sorvetes, fizeram o trajeto das trilhas, mas o parque já estava praticamente deserto e entre os poucos que restavam ninguém se mostrou interessado.

Conforme o previsto e também por conta da umidade do momento, o Rio Branco se esvaziou bem cedo na sexta – feira tão logo o sol se pôs. À noite chegou envolta em uma atmosfera de mistério, ao som de répteis, insetos e ainda alguns pássaros, cobrindo com uma cúpula negra aquela arena densa, que continuava livre a quem desejasse ocupá-la.

*Relato utilizado em: LIMA, Ribamar de Sousa. Entre o Bucólico e o Urbano: A Percepção Ambiental dos Frequentadores do Parque Rio Branco - Fortaleza/CE. Bacharelado em Geografia - Monografia de Graduação. Universidade Estadual do Ceará - UECE, 2019.

*O Parque Rio Branco está localizado no quadrilátero formado pelas Avenidas Visconde do Rio Branco e Pontes Vieira, com ruas Capitão Gustavo e Castro Alves, entre os bairros de Fátima, Joaquim Távora e São João do Tauape, em Fortaleza/CE.

sábado, 5 de dezembro de 2020

Pandemia

 


De repente nos vimos forçados a parar, recuar, abrir mão de tudo que fazíamos por atitude ou pó inércia. O desconforto pela confinamento forçado, associado à incerteza do que estava por vir. Quando tudo começou parecia um acontecimento distante, um ponto no infinito, depois foi ficando maior, mais próximo, mas, mesmo assim, era custoso acreditar que chegaria. De repente surge um caso no país e depois o primeiro no estado, sair era um atrevimento, um desafio, um ato de resistência, um dia de cada vez enquanto ainda se podia. O pior de tudo era a falta de acesso a um mecanismo mínimo de proteção, ou seja, não encontrava-se máscara para vender e ainda não estava deliberado sobre o uso das de tecido. Até que um dia o chefe chama na empresa e pede para recolher o instrumento de trabalho, o bom e velho tablet com que eu fazia as pesquisas. A despedida despretenciosa ao menos tempo pareceu assutadora: "até quando der"; o governadores decretara isolamento social pelo próximos quinze dias, no mínimo. Daí a dúvida quando a fugir ou ficar, se proteger ou colocar outros em riscos. Não seria por pouco tempo, disso eu sabia, então decidi ir. Em recompensa fui recebido por uma natureza exuberante, um verde vegetal e azul celeste como eu nunca havia visto. Era um momento de reviravolta, uma repulsa ao luxo que agora parecia e reconhecimento do valor de um bom e velho rincão. Aos homens cabe agir, mas em Deus está a solução, de nada adianta a racionalidade agressiva se por cima não houver uma inspiração maior. Quem quisesse duvidar que duvidasse, o inimigo agora era real e nocivo, embora invisível.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

Retrato Escrito


 

Poema em Homenagem aos 80 anos do IBGE e apresentado na Unidade Estadual do Ceará, Na Av 13 de Maio, em Fortaleza, no ano de 2016.


Somos negros, mulatos,

Ameríndios, europeus e asiáticos

Compomos juntos uma massa

De mestiços e emblemáticos

 

No campo ou na cidade,

Na serra ou no litoral

Mostramos a nossa raça

Com uma fibra sem igual

 

No folclore, na ciência

Na História ou Filosofia

Fazemos acontecer

O progresso dia a dia

 

Do Nordeste ao frio Sul

Do Amazonas às Gerais

Contemplamos um azul

Que não esquecemos jamais

 

Como não cabe numa foto

É preciso ir para o papel

A pé, de carro ou de moto

Entrevistando o povaréu

 

Na base de tudo está

O agente de pesquisas

Que vê cara boa e má

Mas vai em todas as divisas

 

Nem todos respondem bem

Mas sabem que é necessário

Para o país ir mais além

E se tornar igualitário

 

E assim há 80 anos

O IBGE retrata

Sem causar perdas ou danos

Ao campo, cidade ou mata

 

 Ribamar de Sousa Lima

O Presente

 

Fui despertado, na manhã de um dia de Natal, pela notícia de que havia recebido uma visita especial e que ela, ou melhor ele, havia deixado um presente. Assustado, olhei em volta e lá estava embaixo de minha rede um aviãozinho azul, de plástico, envolto em um saco transparente. Não era pesado, mas tinha um tamanho razoável e eu achei bem mais original do que um carrinho.

Deixado por ele, o bom Noel, que também povoava o imaginário infantil do lugar, embora eu tenha sido um dos poucos ou talvez o único a “ser visitado por ele” nesse dia.

Não sei se meus pais haviam saído à noite e me deixado com alguém ou se haviam comprado o presente com antecedência. O fato é que ele estava lá e eu fiquei indignado por ter corrido tamanho risco: ninguém presenciara a chegada desse estranho e visto ele se aproximar de mim ? Seria ele realmente inofensivo e não haveria tentado me fazer algum mal ?, pensei.

Certamente ele tomou conhecimento do meu temor, por que em outros Natáis, não veio mais me deixar presentes, apenas entregou-os a meus pais para que eles fizessem isso.